A Verdade sobre o Casamento
Artigo para a revista John Bull
Nota Hats Off: em 1930, a Conferência de Lambeth (Assembleia dos Bispos Anglicanos) tratou do tema “Casamento e Sexo”. Ela reafirmou a tradicional doutrina cristã sobre o assunto. No entanto, uma de suas resoluções, embora recomendasse a abstinência, permitiu o uso de contraceptivos “quando houver uma obrigação claramente sentida de evitar a paternidade” e também “quando houver uma razão moralmente correta para se evitar a completa abstinência”. Essa resolução reverteu uma clara proibição do uso de contraceptivos da Conferência de Lambeth de 1920, o que gerou uma ampla controvérsia. Foi nesse contexto em que a revista John Bull pediu a Evelyn Waugh que escrevesse sobre o “Casamento Moderno”.
A Verdade sobre o Casamento
Não há nada de essencialmente “moderno” em bagunçar o casamento de alguém, apesar de que, ouvindo as pessoas falarem, você pode supor que há. Casamentos infelizes são tão antigos quanto a monogamia. O que há de moderno neles é a admissão do fracasso e a alegre prontidão de começar de novo.
Cem anos atrás as pessoas estavam continuamente se cansando de suas esposas ou de seus maridos, assim como elas se cansavam de seus vizinhos, do distrito em que viviam, e da cor de seu próprio cabelo, mas elas consideravam essas coisas como inevitáveis e as toleravam.
Havia muitas outras coisas para diverti-las.
Hoje em dia, apesar da enorme multiplicação de divertimentos, as pessoas parecem ficar cada vez mais interessadas no único divertimento que a civilização e a mecanização foram completamente incapazes de mudar: o velho e simples sexo.
Pessoas responsáveis — médicos, psicólogos, romancistas — escrevem nos jornais e dizem: “Você não pode levar uma vida feliz a não ser que a sua vida sexual esteja feliz”. Isso me parece tão sensato quanto dizer: “Você não pode levar uma vida feliz a não ser que a sua vida no golfe esteja feliz”.
Não é apenas absurdo, é um absurdo pernicioso. Significa que, no momento em que a esposa começa a detectar imperfeições em seu marido, toda a sua vida está arruinada. Significa também que o grande número de jovens que perceberem, ao se olharem no espelho, que eles têm uma aparência normal e que há apenas uma pequena chance de eles inspirarem uma ardente paixão romântica em alguém, considerem eles próprios condenados à infelicidade perpétua.
Permitam-nos ficarmos longe dessa atitude sentimental. O instinto sexual na maior parte dos casos é um apetite perfeitamente leve e controlável, que nunca causaria, na maior parte de nós, qualquer problema sério se ele não estiver sendo continuamente estimulado por todo tipo de sugestão e supressão.
Mesmo nos casos de natureza peculiarmente ígnea, o interesse sexual predomina apenas por cerca de metade da vida ativa. A atitude moderna é fingir que é improvável duas pessoas permanecerem casadas e fiéis por toda a vida, e que no momento em que a atração do casal começa a diminuir é o seu dever procurar outros companheiros.
A Igreja é acusada de estar desatualizada porque manteve suas leis, desconsiderando essa superstição.
A lei da monogamia e do casamento indissolúvel tem sido, claro, um dos fatores que determinaram o desenvolvimento da civilização ocidental. Não há praticamente nenhum ramo de nossa arte, história ou de nossas vidas diárias que não seja de alguma forma influenciada por ela.
Ela dependia originalmente de uma sanção tanto material quanto espiritual. A material era puramente econômica. Presumia-se que cada membro da comunidade tinha alguns tipos de bens que seriam herdados por seus filhos. Presumia-se que o casamento gerava filhos. Presumia-se que as mulheres requeriam proteção e sustento financeiro dos homens.
As leis do matrimônio do Ocidente, com variações de país para país, eram formuladas para resguardar a situação criada por essas condições presumidas. Está na moda dizer que essas presunções são falsas e, consequentemente, que tais leis são obsoletas.
Mas elas são?
É verdade que a tendência do desenvolvimento moderno é em direção contrária, mas ainda é muito cedo para dizer que as três presunções que mencionei estão completamente superadas.
A presente tendência é a de os trabalhadores morarem em cortiços alugados e trabalharem com máquinas cujo valor, talvez, supere a renda da sua vida inteira. Mas trabalhadores deste tipo são apenas uma parte da comunidade, e a maior parte da nossa agricultura e comércio ainda é organizada de forma que a propriedade é transferível de pai para filho. Em todos esses casos, uma ascendência duvidosa e dividida seria fatal.
É o que também ocorre com o controle de natalidade. Essa é uma ciência ainda em estágio experimental. As pessoas falam como se fosse algo que a humanidade tivesse dominado completamente, algo cujo conhecimento só foi negado por preconceito ou malícia.
Assim como a independência econômica das mulheres, a qual está longe de estar completamente desenvolvida. Nós vemos essas tendências, mas não temos conhecimento de quais tendências ocultas também podem estar presentes para frustrá-las.
O Direito pode apenas legalizar condições existentes. Se, no entanto, as condições sugeridas, no presente, realmente se tornem realidade, então parece a mim que as bases materiais para as nossas leis matrimoniais foram completamente alteradas, e é função do Estado sancionar essa mudança.
Por outro lado, a sanção espiritual, que é guardada pela Igreja, é completamente inabalável porque repousa não em condições exteriores transitórias, mas profundamente na natureza do homem.
Ela repousa nas duas grandes verdades: a primeira, de que a vida sexual do homem é somente uma parte da sua atividade. Ele tem uma obrigação para com o resto da comunidade, e não pode cumpri-la se ele gastar todo o seu tempo pensando em novas aventuras amorosas e no seu próprio apelo sexual.
A segunda: a natureza sexual de alguém é mais devidamente satisfeita não na variedade, mas na intensidade da experiência. Ao desenvolver e ampliar seu relacionamento com um parceiro, ele pode chegar a um relacionamento que, quando deixar de ser sexual, assim acontecerá ao se tornar em algo mais importante.
Há um número de pessoas que sustentam que a única parte interessante de um caso amoroso é o namoro preliminar e a entrega inicial.
Isso mostra uma inclinação muito tola e, para proteger-se dela, a lei da Igreja demanda fidelidade absoluta ao cônjuge. Essa lei parece ser desnecessariamente rígida a algumas pessoas.
Grande parte da influência da Igreja foi exercida condenando coisas tolas como pecados e ameaçando com o fogo do inferno. Essas ameaças deixaram de ser aterrorizantes para a parte da população — os menos instruídos — a quem era principalmente dirigidas.
Há apenas uma maneira pela qual as pessoas podem agora ficar impressionadas com a falta de importância do sexo em seu sentido estrito e a importância do casamento em seu sentido mais amplo: permitindo a maior liberdade possível aos jovens em descobrir a verdade.
Pelo atual sistema educacional, a única coisa oculta são os fatos reais sobre o sexo; como resultado natural, consideram-no a coisa mais importante de todas. Quando descobrem que, depois de algum tempo de casamento, as relações sexuais não são tão absorventemente interessantes como foram levadas a supor, pensam que é porque cometeram um erro na escolha do cônjuge.
Então elas entram nas varas de divórcio.
Parece-me que há apenas uma maneira moderna e sensata de lidar com o que é chamado de “problema do casamento”.
Ensine às crianças a biologia e a higiene do sexo; ensine-os que não é infinitamente importante ou infinitamente satisfatório. Ensine-as sobre o controle da natalidade e incentive-as a descobrir por si mesmas exatamente o quanto o sexo provavelmente significa em suas próprias vidas: elas não se casarão por curiosidade ou inexperiência.
Organizem um sistema de casamento civil, registrado pelo Estado, dissolúvel, como qualquer outro contrato legal, por mútuo consentimento.
Em seguida, deixe que a Igreja mostre a importância sacramental do casamento para seus próprios membros. É porque a lei da Igreja repousa sobre uma necessidade humana real que ela não precisa temer por sua sobrevivência.
John Bull, 23 de agosto de 1930.

