Max Beerbohm
O Príncipe dos Ensaístas não gosta de caminhar
Max Beerbohm (Sir Henry Maximilian Beerbohm; 1872 – 1956) foi um ensaísta e caricaturista inglês. Virginia Woolf o considerava “o príncipe dos ensaístas”.
Ainda não traduzido no Brasil, Ronald B. Griggs escolheu o ensaio Going Out for a Walk (publicado originalmente em 1920) para tradução. No seu estilo contrarian (ou “do contra”), Max desafia a noção comum de que caminhar é uma atividade útil para o cérebro.
O ensaio consta da coletânea The Prince of Minor Writers, organizada pelo ensaísta americano Phillip Lopate para a série NYRB Classics.
Sair para caminhar
É fato que, em toda a minha vida, nunca saí para caminhar. Já fui levado para caminhar, mas isso é outra história. Mesmo enquanto trotava tagarelando ao lado da minha babá, eu lamentava os bons tempos em que eu tinha, e não era, um perambulator1. Quando cresci, parecia-me que a única vantagem de morar em Londres era a de que ninguém nunca queria que eu saísse para caminhar. Os próprios inconvenientes de Londres — seu barulho e agitação incessantes, seu ar enfumaçado, a miséria que se esconde por toda parte — garantiam essa imunidade.
Sempre que eu estava com amigos no campo, sabia que a qualquer momento, a menos que estivesse chovendo de verdade, alguém poderia dizer de repente: “Vamos caminhar!”, naquele tom imperativo e incisivo que jamais usaria em qualquer outra situação. As pessoas parecem achar que há algo inerentemente nobre e virtuoso no desejo de caminhar. Qualquer pessoa com esse desejo sente-se no direito de impor sua vontade a quem quer que esteja confortavelmente acomodado em uma poltrona, lendo.
É fácil dizer simplesmente “não” a um velho amigo. No caso de um mero conhecido, é preciso alguma desculpa. “Gostaria muito, mas ...” — nada me ocorre além de “Tenho algumas cartas para escrever”.
Essa fórmula é insatisfatória por três motivos.
(1) Não é levada a sério.
(2) Obriga você a levantar da cadeira, ir até a escrivaninha e improvisar uma carta para alguém até que o curioso (só não ouse chamá-lo de mentiroso e hipócrita) saia da sala.
(3) Não funciona nas manhãs de domingo. “O serviço dos Correios só estará aberto à noite” encerra a questão; e você pode muito bem ir calmamente.
Caminhar por puro prazer pode ser algo tão louvável e exemplar quanto dizem aqueles que o praticam. Minha objeção é que isso paralisa o cérebro. Muitos homens já me disseram que seu cérebro nunca funciona tão bem quanto quando estão caminhando por estradas sinuosas ou por colinas e vales. Essa afirmação não se confirma pela minha lembrança de ninguém que, em uma manhã de domingo, tenha me obrigado a participar de sua aventura.
A experiência me ensina que toda a capacidade de instruir ou divertir um convidado quando está sentado em uma cadeira ou em pé sobre um tapete desaparece rapidamente quando ele sai para caminhar. As ideias que lhe rondavam com tanta força em qualquer lugar, onde estão agora? Onde está aquele conhecimento enciclopédico que ele carregava com tanta naturalidade? Onde está a imaginação fértil que brilhava como um relâmpago de verão sobre qualquer assunto que surgisse?
O rosto do homem, antes tão expressivo, agora está impassível; o brilho de seus belos olhos se foi. Ele diz que A. (nosso anfitrião) é um sujeito muito bom. Cinquenta metros adiante, acrescenta que A. é um dos melhores sujeitos que já conheceu. Caminhamos mais uns trinta metros, e ele diz que a Sra. A. é uma mulher encantadora. Logo em seguida, acrescenta que ela é uma das mulheres mais encantadoras que já conheceu. Passamos por uma estalagem. Ele lê em voz alta, sem muita convicção, para mim: “The King’s Arms. Licenciado para vender cervejas e bebidas destiladas.”
Prevejo que, durante o resto da caminhada, ele lerá em voz alta qualquer placa que encontrar pelo caminho. Passamos por outra placa. Ele aponta para ela com sua bengala e diz: “Uxminster. 11 milhas”. Viramos uma esquina ao pé de uma colina. Ele aponta para o muro e diz: “Dirija devagar”. Vejo, bem à frente, do outro lado da cerca viva que margeia a estrada principal, uma pequena placa. Ele também a vê. Mantém os olhos fixos nela. E, em breve, ele diz: “Invasores serão processados”. Coitado! — mentalmente um desastre.
O almoço no A’s, porém, o acalma e o revigora. Ei-lo novamente, a alma da festa. Certamente, depois da amarga lição desta manhã, ele nunca mais sairá para uma caminhada. Uma hora depois, vejo-o sair, com um novo companheiro. Observo-o até que desapareça de vista. Sei o que ele está dizendo. Está dizendo que sou um homem um tanto enfadonho como companhia para uma caminhada. Logo acrescentará que sou um dos homens mais enfadonhos com quem já caminhou. Então, dedicar-se-á a ler as placas. Como é possível essa deterioração imediata naqueles que caminham por puro prazer? O que acontece?
Imagino que não seja a razão que leva um homem a essa empreitada. Ele é impelido, evidentemente, por algo dentro dele que transcende a razão. Presumo que seja pela alma.
Sim, deve ser a alma que grita “Marcha rápida!” para o corpo.
— “Pare! Acalme-se!” intervém o cérebro, e “Para qual destino?”, pergunta suavemente à alma, “e em qual missão você está enviando o corpo?”
— “Em missão alguma”, responde a alma, “e para destino algum”. “É típico de você estar sempre à procura de algum sutil motivo oculto. O corpo está caminhando porque o simples fato de o fazer é uma clara indicação de nobreza, probidade e grandeza de caráter.”
— “Muito bem, Vagula, tome seu caminhula!2 Mas eu”, diz o cérebro, “recuso-me terminantemente a me envolver nessa bobagem. Vou dormir até que tudo termine”.
O cérebro então se enrola em suas próprias circunvoluções e cai num sono profundo, sem sonhos, do qual nada pode despertá-lo até que o corpo esteja em segurança dentro de casa.
Mesmo que você vá a um lugar específico, com um propósito definido, o cérebro preferiria que você usasse um veículo; mas ele não faz questão disso; ele o servirá bem o suficiente, a menos que você esteja indo caminhar. Enquanto suas pernas estiverem competindo entre si, ele não fará nenhum pensamento profundo por você, nem mesmo um pensamento crítico; mas fará de bom grado uma série de pequenas tarefas para você — desde que suas pernas também estejam se tornando úteis, e não apenas o levando de um lado para o outro para satisfazer o orgulho da alma.
Assim sendo, este ensaio foi composto durante uma caminhada, esta manhã. Não sou um daqueles extremistas que precisam de um veículo para cada destino. Nunca me esforço para evitar exercícios. Aceito-os como vêm e os aceito de bom grado. O fato de os valetudinários estarem sempre falando sobre isso e se entregando ao excesso não é motivo para desprezá-lo. Estou inclinado a pensar que, com moderação, é até benéfico para a saúde física. Mas, até que chegue o dia em que ninguém queira que eu vá visitá-los, e eu não queira visitar ninguém, e não haja absolutamente nada para eu fazer fora de casa, nunca sairei para caminhar.
* * *
No inglês britânico, perambulator é aquele que perambula e, também, um termo antigo para designar um carrinho de bebê. Infelizmente, o trocadilho é intraduzível para o português.
Vagula significa errante, errático, ou inquieto em latim. Termo utilizado na expressão animula vagula blandula (pequena alma errante). Aqui, Max Beerbohm usou a palavra “wayula” para que a palavra “way” rimasse com Vagula. Adaptamos para o português do jeito que foi possível.



