Waugh resenha Bernanos
Visão de Santo
O Journal d’un Curé de Campagne que surgiu em Paris no ano passado foi um livro difícil para o leitor inglês. Muitos o deixaram de lado na esperança de que um livro de tal importância encontraria um bom tradutor mais cedo ou mais tarde; isso aconteceu mais cedo do que ousávamos esperar, e a tradução da Srta. Morris é admirável. Ainda é um livro difícil porque trata de assuntos tão profundos e complexos quanto os há; não acho que ele poderia ter sido menos obscuro; na verdade, sua própria clareza o torna mais intrigante em alguns locais.
Diário de um Pároco de Aldeia — que presságios o título pode trazer! Presságios pouco amenizados pelo retrato abafado do Sr. Bernanos na sobrecapa.
Pode-se pensar em algum velho clérigo caprichoso vagando pelos jardins murados de sua casa paroquial destilando doces e pequenas gotas de sabedoria das glicínias; na pior das hipóteses, um Beverly Nichols1 com coleira de cachorro, na melhor, The Provincial Lady Takes Holy Orders2. Mas “o campo” significa algo bem diferente para os franceses. Nós o vemos como um lugar de lazer — de preferência lazer opulento entre lagos e alamedas, na pior das hipóteses, lazer aconchegante com madressilvas, palha e creme coalhado.
Para os franceses, “o campo” significa o trabalho manual mais difícil possível, a pobreza, a avareza e o crime; o Sr. Bernanos não se sente tentado a sentimentalizar sua aldeia, muito menos a dramatizá-la.
É uma aldeia muito comum e os pecados de seus habitantes são pecados muito comuns, mas são vistos com olhos muito excepcionais. O herói do Sr. Bernanos é jovem, muito doente, pouco erudito, mas tem a penetração peculiar e a compaixão quase febril que vêm da santidade. Para ele, o pecado em suas formas mais simples é obsceno e horrível, e através de seus olhos vemos o atrito familiar no château e a tola maldade das crianças da aldeia como algo monstruoso.
Vivemos em um mundo de autores que tentam fazer nossa carne arrepiar elaborando crimes cada vez mais perversos e sangrentos, mas ao lado do pecado, como o santo o vê, essas façanhas são apenas travessuras de crianças, enquanto as travessuras de algumas crianças podem clamar ao céu por vingança.
É esse senso de pecado que torna o livro único em temperamento; os incidentes são administrados com extrema habilidade; o drama do diálogo é tremendo tanto em seu poder quanto em sua graça. Um livro realmente muito bom.
Resenha de The Diary of a Country Priest, de Georges Bernanos.
Night and Day, 28 de outubro de 1937.
Escritor inglês (1898–1983) conhecido pelos seus livros sobre jardinagem.
Possível referência à série de livros Diary of a Provincial Lady, da escritora E. M. Delafield (1890–1943).


